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terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Amigos Para Sempre


Chovia, tudo ao redor era pura escuridão - relâmpagos trovejavam vez em quando - de repente a estrada estava deserta e bem no meio do percusso entre a cidade de Woodstock e o palco do Festival, na cidadizinha de Bethel, o cenário era apavorante. As árvores invadiam a pista e tornavam o percusso um breu. Ao lado do que seria um acostamento havia uma ruína de igreja, já tomada pela mata mas com uma cobertura suficiente para abrigar os quatro amigos.

Eram dois casais de seus vinte anos, Fred e Alice e Joe e Rachel, iam ao Show de comemoração dos 40 anos do Festival de Woodstock. Neste momento já deveriam estar no show, não fosse a imensa tempestade que fez o carro derrapar no trecho mais sombrio da estrada e bater numa árvore centenária em frente à ruína da igreja.

Os quatro conversavam sobre banalidades como o clima e os últimos resultados do futebol quando Fred, o mais novo, decidiu fazer uma aposta - cada um contaria um conto de terror e o melhor levaria o monte. As histórias eram sombrias, iam desde assassinos em série que usavam métodos de tortura como retirar completamente a pele da vítima ainda viva a almas que aterrorizavam militares aposentados.

Enquanto a chuva diminuia, os relâmpagos e trovões se tornavam cada vez mais intensos, fazendo daquele o cenário perfeito para que aquelas histórias fossem contadas. O grupo estava muito empolgado, cada um já tinha contado ao menos dois contos e não pretendiam parar, mas um barulho de sirenes e carros parando no acostamento os fez interromperem o que faziam, então, com olhos cheios de lágrimas se abraçaram e seguiram rumo à pista.

O acidente daquela noite saiu em noticiários do mundo todo. Os talk-shows não falavam em outra coisa. Programas se dedicaram por inteiro ao ocorrido. As pessoas ficaram muito comovidas com o que ocorrerá com aqueles amigos a caminho de Woodstock. E em todo lugar a manchete era a mesma: Quatro amigos sofrem acidente fatal a caminho de Woodstock e a emergência os encontra em estranha posição - quatro cadáveres de mãos dadas dentro do carro destruído.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Violência em Trânsito

Márcio voltava da churrascaria Mama’Minha, estava sozinho no seu novo Fiat 500, seu mais novo sonho de consumo realizado. Tinha almoçado com a família e ia à casa de um amigo assistir ao jogo da seleção do Brasil com a rapaziada.

Faltavam apenas 15 minutos para as 4 da tarde. A avenida do parque municipal estava completamente deserta, perfeita para ele testar ao máximo seu possante.

Quando o velocímetro chegava aos 140 km/h apareceram em sua frente dois meninos atravessando a pista correndo com uma pipa, ele freou o carro de uma vez, os meninos conseguiram chegar à calçada quando o carro chegava a 40 km/h, mas Márcio não esperava que houvesse um terceiro garoto, que estava bem em frente ao carro. O garoto pulou bem na hora e se livrou do carro.

A sensação de alivio logo deu lugar à raiva. Márcio gritou algo inaudível para o moleque, o qual deveria ter aproximadamente uns oito anos, e o pivete mandou uma dedada de volta. Foi a gota d’água, Márcio pegou o primeiro retorno que apareceu e foi com o carro em direção ao grupo de garotos, que já nem o notavam, de costas.


Sua intenção era de meter uns cascudos no moleque para lhe dar uma lição inesquecível. Tudo ocorreu bastante rápido, um deles viu o Fiat 500 branco com faixas laterais verde e vermelha – un taliano allineare – chegar perto e avisou ao menor deles, o alvo. A reação dele foi imediata, correu para outra pista sem olhar sequer para uma Pajero Full que vinha com certeza, a não menos de 80 km/h e lhe atingiu em cheio.

A Pajero parou e um homem de seus 40 anos desceu e foi ao encontro da vítima, jogada a mais de 100 metros. Da carona desceu uma senhora, a qual parecia ser sua esposa, que foi conter o desespero de três crianças no banco traseiro, duas meninas e um menino, todos menores que o garoto atropelado.

Não sei de onde nem como, mas o número de pessoas que se aglomeravam no local era impressionante, o motorista gritou que o garoto parecia morto e seus dois colegas gritavam e apontavam para o Fiat 500, paralisado no mesmo local do outro lado da avenida desde o momento do acidente.

Foi então que Márcio despertou, arrancou o carro ouvindo gritos e ainda cruzou com a ambulância que ia ao local do acidente.

Chegou à casa do Thiago, seu amigo, e se deu conta de que o jogo já havia começado, o Brasil estava perdendo para Bolívia por um a zero. Thiago não pôde conter o espanto e perguntou:
- O que foi que aconteceu com você cara? Parece que viu defunto.
- E vi. Pior ainda, eu gerei aquele defunto.
- Entra logo e me explica qual foi a merda que você fez dessa vez.

Márcio contou tudo o que ocorrera a todos que estavam ali presentes, e partiu para a delegacia para se entregar, ele sabia que não era o principal culpado, não tinha atropelado ninguém, mas tinha ainda um mínimo de dignidade para honrar e assumir a sua parcela de culpa.

O caso atingiu grandes proporções na mídia e alguns meses depois Márcio fazia campanhas contra a violência no transito. Até que numa saída de festa ele trancou um carro sem intenção e uma bala foi cravada no meio da sua testa.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Viver ou morrer em Paris?

Jules acordou mais deprimido que de costume, esse era o seu problema, acordar. Você pode imaginar, caro amigo, o que é acordar quando se está morto? E ainda por cima conseguindo interagir com todos e ser tido como louco por se declarar um defunto? Por que teimavam com ele algo tão óbvio? O que há de errado em morrer? Se tantos podem por que ele não? Quanta injustiça!

Hoje era um dia decisivo para ele, o seu dia D. O morto-vivo optara por não mais se alimentar, afinal, mortos não comem. Foi quase que rastejando até o banheiro e começou a encher a banheira com água morna, mas logo mudou de idéia, não havia necessidade disso, vestiu o pijama jogado na porta e saiu às ruas numa manhã espetacular na sua charmosa Paris. Dobrou a esquina da rua na qual morava, Rua Cotard, número 1880, e se dirigiu ao seu local preferido da cidade - e também de inúmeras pessoas em todo o mundo - a Torre Eiffel.

O cenário estava perfeito, um gramado repleto de pessoas pegando o sol leve da manhã e fazendo piqueniques, não faltariam testemunhas para vislumbrar sua prova de imortalidade.

Jules pegou o elevador e foi ao último nível da Torre aberto à visitação. Chegara a hora de provar ao mundo que estava certo, ou seja, era um defunto, portanto, imortal.

Já apoiado no parapeito começou a fazer um grande escândalo e rapidamente conseguiu o que pretendia, a atenção de todos ali presentes. Griatava para a multidão: Estou morto! Por que vocês não me aceitam como tal?

As pessoas abaixo dele começaram a se aglomerar para ver de perto o maluco que se jogaria Torre abaixo - a humanidade nunca encontrou atividade melhor do que ver a desgraça alheia, e vê-la numa paisagem daquelas era imperdível, nem o Coliseu é palco melhor.

Peço já desculpas pela descrição tão breve do momento, mas foi um ato tão rápido que o que expus há pouco ocorreu em frações de segundos: Jules, o morto-vivo parisiense, se jogara Torre abaixo atraindo ainda mais curiosos que queriam ver seu corpo em migalhas na base do monumento.

Azar ou sorte, tire suas próprias conclusões, o cadáver estava vivo. Foi levado ao hospital - após um casal de turistas posarem ao lado dos paramédicos para uma foto - e após acordar mais de uma semana depois, descobriu que estava realmente vivo, e, como uma lembrança da tragédia, perdeu os movimentos das pernas e ganhou uma cadeira de rodas. Jules não ficou nem um pouco abalado, aliás, o que é perder duas pernas para quem tinha perdido a própria vida?

domingo, 11 de janeiro de 2009

Que Assim Seja, Amém!

Eram oito horas da manhã e o sino da igreja chamava os fiéis para mais uma missa dominical na Ilhéus de 1932. Os coronéis do cacau levavam suas esposas até a porta da igreja no porto e atravessavam a rua rumo ao bar Vesúvio, para resolverem negócios...

Assim que o último coronel entrava no bar as portas eram fechadas. Manoel, o português dono do bar, abriu as portas mais distantes do fundo do bar e e foi puxando a procissão pelo túnel escuro. 200 metros adiante Manoel abriu outra porta, essa com dois grossos cadeados, e o Sol, que ali parecia mais radiante, iluminou os rostos dos sorridentes coronéis.

Ali funcionava o Bataclan, o paraíso dos homens daquela região, e de outras, que vinham conferir o comentado bordel e casa de jogos. Na sala de entrada todos guardavam seus chapéus, paletós e bengalas e já acendiam os charutos cubanos enquanto se dirigiam à sala de jogos. De meia em meia hora dançarinas de cabaret entretiam os clientes com shows e iam com os perdedores do poker para os aposentos no andar superior.


Num dos shows o som foi interrompido, Maria Machadão, a proprietária do estabelecimento, uma senhora de seus 60 anos, mas com cara e corpo de 30, entrou no salão e de mesa em mesa cumprimentou os seus clientes. Aquela mulher era tudo o que aqueles coronéis mais desejavam, mas, para a infelicidade deles ela era uma dama de respeito, e só administrava o lugar. Ela passou um tempo maior numa das mesas de jogatina, a mesa na qual estava sentado o coronel Olívio, o único que a possuía. O caso deles já tinha quase uma década, e embora todos na cidade soubessem, eles eram muitíssimo discretos. Primeiro, ela se recolheu ao seu quarto, e em menos de dois minutos Olívio pediu licença para redigir uma carta no escritório público, que ficava vizinho ao quarto da Srta machadão.


Na igreja o padre chegava às duas horas de missa ininterruptas, metade do tempo total, e o calor era insuportável, mas não tanto quanto aquelas mulheres precisavam fingir acreditar nas reuniões dos maridos e tolerá-las, mas, fazer o quê se isso era o preço a se pagar para levar uma vida de madame. Tudo pelas roupas vindas da Europa e pela mordomia de ter escravos numa época em que a escravidão já não deveria existir. Dona Ana Maria, esposa do coronel Olívio, o mais rico da região, tinha seu lugar e os de suas filhas reservados pelo padre Itamar na primeira fila, era o camarote vip da época, o lugar mais próximo de Deus, e do santíssimo padre.


Após quatro horas de missa em latim, cantos que caberiam em uma caixa de vinís, ventos gerados pelos leques capazes de mover moinhos e suor que daria para abastecer a cidade por uma semana o padre ordenou que o coroinha mais velho fosse tocar o sino anunciando o fim da missa, disse ainda: Toque daquele jeito!


O coroinha chamou um colega para ajudar e foram com todas as suas forças tocar o sino, tocavam sempre por três minutos, e então retornaram ao altar. O padre autorizou que abrissem as portas e foi o primeiro a sair em direção ao bar Vesúvio. As mulheres, como de costume, foram conversar na praça enquanto esperavam pelos seus coronéis.


A multidão tinha acabado de chegar pelo túnel do Manoel quando um funcionário do Vesúvio abriu a porta para o padre Itamar. Os coronéis fizeram fila para receber as bênçãos divinas e após recebê-las deram cada um sua contribuição ao coronel Olívio, que somou mais uma generosa quantia e repassou o dinheiro ao bondoso padre, que exercia a cada semana o seu papel celestial de distrair as mulheres. E assim, a vida sustentada por cacau continuou em Ilhéus por muitos e muitos anos, com cada vez mais dançarinas, coronéis, padres e beatas.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Natal sem Dente na Casa de Parente


O natal da minha família sempre tentou ser somente um natal tradicional, mas felizmente nunca conseguiu, e a cada ano nos superamos e algo inacreditável ocorre. No último natal aconteceu um fato tão bizarro que chega a ser egoísmo não dividí-lo com você. E esse será o meu presente de natal a todos os leitores desse Blog...


Jingle bells, jingle bells, jingle all the way ...

O papai noel tamanho real (não me perguntem como sabem que é tamanho real) que minha avó havia comprado cantava e rebolava quando cheguei com meus pais e irmãos em sua casa. As tias chatas estavam a postos falando mal dos parentes que ainda não tinham chegado - mudaram de assunto assim que chegamos - os primos em tamanho miniatura corriam feito pinschers pela casa toda e os mais velhos ainda não tinham chegado.

Por volta das onze horas começamos o amigo secreto. Pedi pra começar e milagrosamente me deram essa honra. Descrevi quem tirei:

1. Um sujeito desastrado;
2. Incoveniente;
3. Geralmente engraçado e;
4. Com uns 200 kilos destribuidos nos seus 1,90m...

A família respondeu em coro: Frank! Era o irmão do meio de minha mãe, o tio preferido de todos os sobrinhos e filho e marido indesejado. A brincadeira continuou com ora alegria, ora decepção, eu por exemplo ganhei um conjunto de sabonete líquido e shampoo, será que sou tão fedido?

A ceia foi servida pouco após a meia-noite, depois de rezarmos o pai-nosso. Nunca tinha visto uma mesa tão farta, era uma pena eu ter me enfartado tanto com queijo e salgadinhos, mas pelo menos pro famoso tender preparado pelo meu avô eu tinha um lugar guardado. Tio Frank sentou numa das cabeceiras da mesa de 2 mil metros e gentilmente pediu ao meu pai, que estava no meio da mesa:

- ALFREDO, PASSA O PERU!

Ele cortou quase um kilo de peru e a coxa que sempre dizia ser sua por direito, sabe-se lá por que, e depois da primeira garfada voltou a falar:

- PORCARIA! Meu dente caiu ! Alguém me ajude a achar esse infeliz nesse prato.

Só minha vó conseguiu parar de rir e ajudar o abestado, o dente estava no meio da salada, e o prato dele era maior que os dos outros tios juntos. Ele pegou o dente e saiu resmungando para a cozinha. Após todos acalmarem os ânimos continuamos jantando, quando de repente vem o tio Frank correndo da cozinha pulando e sem abrir a boca, totalmente desesperado com uma Super Bonder na mão. Colou além do dente a boca...

-Maravilha! - Meu pai não aguentou e foi o primeiro a gargalhar.

Metade da família interrompeu o jantar e foi levá-lo ao hospital enquanto a outra metade ficou rindo da situação. Após duas horas o resgate em família retornou com tio Frank puto da vida, ele nem respondeu às provocações e foi terminar o seu prato, ficando ainda mais enfurecido ao perceber que roubaram a coxa do seu prato.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Uma Vida Nas Alturas

Tripulação, decolagem autorizada.

O coração de Ana Maria estava mais acelerado que os dos torcedores do Vasco no jogo do rebaixamento, era seu primeiro vôo, todos os seus amigos e familiares foram levá-la ao aeroporto - nenhum deles tinha viajado de avião também, isso não era comum na década de 60 - ela estava saindo do Rio de Janeiro para Miami, queria parir ao lado do marido, que prestava serviço lá há um ano para uma empresa de engenharia brasileira. E seu filho teria além do suporte de uma das melhores maternidades do mundo, dupla nacionalidade.

Para não viajar sozinha insistiu que a irmã, Beatriz, fosse com ela, alegou ser covardia deixar uma irmã com uma barriga de sete meses sozinha numa máquina daquelas, se era pra sofrer que sofressem em família.

O comandante anunciou que poderiam retirar o cinto de segurança e que em poucos minutos seria servido o serviço de bordo.

Ana comeu o seu jantar e o da irmã, a qual estava completamente imóvel esmagando um terço entre seus magros e longos dedos.


- Está com medo Bia?

- Não tanto, mas começo a duvidar de que eu tenha coragem para viagem de volta. E você está bem?

- Estou sim, só queria que você me ajudasse a ir ao banheiro, bebi muito suco e acho que não segurei, estou toda molhada.

- Como é? Deixe eu dar uma olhada.... Sua bolsa rompeu!! Socorro! Minha irmã entrou em trabalho de parto!!


O avião sobrevoava a floresta amazônica neste momento. Haviam três médicos no vôo, mas logo que o primeiro se apresentou os outros preferiram voltar a dormir. A comissária levou as irmãs e o médico para a primeira classe e ficou para ajudar. O doutor se impressionou quando viu que o parto não demoraria mais de uma hora. E aconteceria ali mesmo, no avião.

As contrações se tornavam mais intensas, Ana gritava mais alto e com maior intensidade, os de sono mais pesado iam também acordando, as crianças choravam e se esperneavam, as mulheres estavam em pânico e os homens aterrorizados.

O médico disse já estar vendo a cabeça de Clarice, chegara o momento tão esperado, em frações de segundos o resto do corpo deslizara para fora... Não era Clarice, era Ricardo, o pai vencera a aposta.
Um fato desses costuma render uma boa audiência na mídia, então, assim que o avião pousou em Miami, no início da manhã, além de carros da polícia, paramédicos e bombeiros (pra quê bombeiros?) estavam vans de todas as redes de televisão, e é claro, o pai.

Foram todos levados à maternidade e liberados no mesmo dia à noite. As irmãs juravam nunca mais entrar num avião, e assim foi feito, moram lá até hoje. Beatriz se casou com um ricaço de Palm Beach que era o responsável pelas provas da Nascar no estado e exerce com maestria a profissão de mulher de milionário; Beatriz escolheu a luxuosa orla de Miami Beach e se dedicou aos filhos, depois de Ricardo teve duas meninas, ambas nascidas em solo firme, e; seu marido (vai terminar sem nome mesmo) foi contratado pela Odebrecht - Miami.

O menino que nasceu nas nuvens cursou a escola de aviação e hoje pilota Boeings de Los Angeles ao Japão, casou com uma aeromoça inglesa e mantém um apartamento espaçoso em frente ao Central Park. Quando tem tempo vai com a família visitar os pais e tios na Flórida e o restante da família que ficou no Brasil, além dos sogros em Londres. É, uma vida nas alturas.

sábado, 25 de outubro de 2008

Chuta que É Macumba

Clara tinha acabado de chegar em São Paulo para um congresso, sua tia foi buscá-la no aeroporto e enquanto colocavam a conversa em dia foram para casa tomar o café da manhã. Café e banho tomados Clara foi falar com a tia:

- Não quero ir pro congresso hoje, as aberturas são sempre chatas. Você pode me levar pra conhecer um lugar interessante?

- Lugar interessante? Claaaro, vamos lá.

No caminho Clara tentava imaginar para onde estavam indo: Shopping Eldorado? 25 de Março? Um tour pela Avenida Paulista? Mas preferia não perguntar, qualquer um desses seria uma boa opção, era melhor guardar a surpresa. Já faziam 35 minutos que haviam saído de casa, e nada, não que as coisas sejam perto em São Paulo e o trânsito fácil, mas a casa de sua tia era bem localizada e o trânsito estava incrivelmente livre naquele dia, o estranho é que elas entravam em bairros cada vez mais parecidos com cidades do interior com ruas estreitas e lojas desertas e ultrapassadas, aquela paisagem parecia estar longe da de um local interessante.


20 minutos depois o carro estacionou em frente a uma casa velha e mais baixa que a calçada, a aparência era assustadora:

- Chegamos, esta é a casa de Dona Abghail, você vai adorar conhecê-la.


Entre o muro e a casa havia um estreito jardim saturado de todos os tipos de ervas e plantas desconhecidas. Na sala havia uma velha baixa e gorda, morena, com a pele semelhante à bochecha de um bulldog e usando um Ray-Ban. Estava atrás de uma enorme mesa. Em cima da mesa haviam mais de 50 santos diferentes e um crucifixo gigante, pela porta do fundo era possível ver um terreiro com não menos que 30 galinhas pretas. Clara só se perguntava quem diabos era essa Dona Abghail, uma mãe de santo? rezadeira? macumbeira? curandeira? mutante sobrenatural? Mais tarde descobriu que ela agia como se fosse tudo isso e algo mais. O silêncio foi interrompido por uma voz gélida, áspera e metálica:



- Sabia que vocês viriam hoje pela manhã. (Claro)

- Você é um anjo! - (Mais uma atribuição) - Eu trouxe minha sobrinha para lhe conhecer, a Clara.

- Nem precisa dizer seu nome completo e endereço, já está no caderno dos familiares de primeiro, segundo e terceiro graus da sua tia. Anote aí numa dessas folhas que estão em cima da mesa o nome de seu protetor e dos anjos da guarda de frente, de trás, do lado esquerdo e do direito e sua cor espiritual - Ela falou todos os nomes, pegou uma bengala para cegos (Ela ser cega dá todo um charme para os poderes sobrenaturais) e pareceu fazer preces em torno de Clara, depois, voltou para sua poltrona vermelha - Anote agora as folhas dos banhos, você deve usá-las no lugar do sabonete, mas pode usar shampoo (Que alívio), lembre-se de nunca usar a toalha, a água deve evaporar naturalmente (Isso no frio de São Paulo deve ser ótimo). Ah, e se quiserem podem "pegar" as folhas aqui no quintal, são difíceis de ser encontradas por aí (Não diga).


Antes de sair, a tia entregou uma feira de supermercado que fez para D. Abghail, pagou R$50 por uns pacotes de folhas e deixou mais de R$100 pela "consulta" e pelas orações que D. Abghail faz por ela quando ela precisa.

Mal haviam saído e a tia ligou pra sua Guru:

- Esqueci de lhe perguntar, por qual caminho devo voltar? Ah, tem razão, pela autopista deve ser mais rápido e seguro mesmo, obrigada, tchau.

- Tia você intercede a ela por tudo? Não vi nada demais naquela mulher, a não ser a esperteza.

- Não fale assim de Dona Abghail, ela é violenta, você não conhece as rezas dela. Seu avião só não caiu porque pedi a ela que o guiasse (Primeiro Mandamento, não fales o nome de D. Abghail em vão). E só não batemos o carro ainda porque dirijo com anéis e aliança na mão oposta pra evitar acidentes, além de ter usado um vestido com lilás, verde e laranja no réveillon, como ela mandou. Ela agora está tentando fazer com que minha vizinha se mude. Lembra dela? Parecia ser minha amiga, mas é bruxa, vivo caindo em casa, só pode ser praga dela (Danou-se). Vive de cara feia pra mim.

- Você continua lavando o muro de madrugada?

- Sim.

- Então entendo a raiva dela.

Depois desse dia Clara não perdeu um dia de congresso, dormiu 2 deles ilegalmente no quarto de suas amigas num hotel e dizia onde queria ir a sua tia antes de saírem. E por via das dúvidas, era melhor não ficar falando de Dona Abghail.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

3 Contra o de Bigode


Era um belo dia de sol... mentira! Era uma tarde transformada em noite, relâmpagos trovejam incessantemente e os raios eram tão frequentes quanto os grãos de areia que haviam nas praias daquele lugar. Uma tempestade intensa permaneceria ali até o fim da madrugada, no pequeno vilarejo costeiro de Labrador. Quatro chefes de estado estavam reunidos numa sala de reunião na melhor casa do lugar (uma mansão de 1.400m² construídos, com cerca de 10 suítes dignas de recebê-los) e discutiam como Homers e Barts:

-Não retirarei as minhas tropas! - dizia enfurecido um sujeito de bigode estranho.

-Acha mesmo que eu esperava alguma atitude digna de alguém que se aproveita de seus aliados e depois se volta contra eles? Devia ter pensado melhor antes de partir rumo a Moscou.

-Calma vocês dois, dessa maneira não sairemos do lugar. Proponho um cessar fogo por algum tempo.

Aí foi a vez do quarto homem falar:

-Sem chance! Se esse sujeito acha que pode contra todos nós está muito enganado, é hora de nos unirmos e tirá-lo de cena de uma vez por todas. Eu não tinha tanto interesse na Europa, mas se é para o bem geral das nações eu deixo de ser um mero espectador e facilitador e saio da América para participar da Guerra contra o Mal.

-Não sejam ridículos, vocês nunca serão superiores a mim. Contentem-se com o que lhes resta e deixem eu me apropiar do que me pertence. E você, americano maldito, não interfira no meu continente para que eu não vá até aí.

O russo não se conteve:

-Está muito enganado, posso ter perdido bastante território, mas meu exército é grande o suficiente para tomá-lo de suas unidades restantes. Por isso proponho uma aliança com a América e a França para derrotá-lo.

-Ok, esqueçamos minha idéia de cessar fogo, te ajudo contra ele até vir reforço do outro continente. - disse o francês - E como é minha vez: 3 contra 1 na Alemanha... Você tirou 1... Au revoir!

E assim caminha para o fim mais uma emocionante partida de War entre quatro velhos amigos, a terceira do dia e 18ª daquele verão.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Balder Walker - 1 - Protótipo

Não gosto de sair falando sobre a minha vida para ninguem, mas vem acontecendo tantas bizarrices comigo que eu tenho a obrigação de dividí-las com você. E nada de se aproveitar e ja vir esmiuçando essa vida inútil que levo, conto o que quero, ouça se quiser e contente-se com o que foi dito. Não sei até quando vou escrever esse troço, mas garanto que enquanto escrever vou fazer da melhor maneira.

Me chamo Balder Walker e para fazer jus a esse maldito sobrenome, adoro sair por aí sem rumo. Do que eu mais gosto? Além de escrever, viajar, adoro conhecer novos lugares. Quer me deixar muito feliz, o cara mais feliz do mundo? Me convide para viajar. E é o que mais vou fazer daqui para frente, recebi uma boa grana - dinheiro para ter uma vida de magnata por mais 100 anos, tempo que estimo ter ainda - e vou aproveitá-la da melhor maneira, viajando muito. Depois de dar uma volta ao mundo decidirei onde montar minha base, não que eu vá passar o resto da minha longa vida no mesmo lugar, não disse em momento algum que tenho raízes, mas vou querer passar algum tempo em um lugar fixo, onde possa ser encontrado às vezes. Voltemos à viagem, que é mais interessante, assim que recebi a grana fui depositar tudo num banco, chequei se meu passaporte ainda tinha validade, tinha, e arrumei minha mala, roupas para frio e calor, documentos, uma escova de dentes com um ano de uso, perfumes, um ipod abarrotado, laptop (de onde acha que vou escrever?) e é claro, um cortador de unhas.

Deixei pago alguns meses de aluguel, só para manter meus poucos bens num local seguro, quando terminar a viagem mando alguém vir buscar as coisas. Desci do apartamento e entrei no yellow cab que me esperava, espero demorar muito para ver um desses novamente ou qualquer coisa que me faça lembrar dessa cidade, Nova Iorque não é um lugar para se morar, e incrivelmente estou me libertando daqui, agora entendo porque esse foi o local escolhido para abrigar a estátua da liberdade, inclusive tenho a impressão de que até ela deseja ir embora.

O taxista, um senhor bem humorado, me perguntou para onde iriamos, após colocar minha mala no fundo do carro. Com cara de pouca conversa lhe disse: Aeroporto John F Kennedy, por favor.

-Vai viajar?

Pronto, o cara me viu com uma mala, peço a ele para me levar ao aeroporto e ele me faz uma pergunta dessas, no duro, juntei as poucas forças que ainda tinha depois dos últimos acontecimentos, respirei fundo e respondi:

-Vou, ando cansado dessa cidade e de toda a gente que vive aqui. Quero ficar longe por um bom tempo.

Depois disso sua única frase, já no aeroporto, foi:

- São 76 dólares e 30 centavos. Tem 30 centavos para facilitar o troco?



Fui ao balcão da Virgin Atlantic e perguntei à balconista, já sabendo a resposta:
- Para onde vai o vôo internacional mais próximo excluindo qualquer destino na América?
- Para Londres, senhor.
- Quando sai o próximo?
- Só terei vaga disponível para o vôo 010, que parte exatamente daqui a duas horas, às 21h35min com chegada no Aeroporto Heathrow, Londres, às 09h30min do dia seguinte, horário local.
- Quero uma passagem na primeira classe (mereço o luxo) no nome de Balder Walker. Quanto custa?
- Us$ 5.564,00.

Despachei a bagagem, peguei a passagem e fui comprar alguns livros, eles são úteis em qualquer viagem, mesmo nas mais divertidas haverá um momento no qual você não terá o que fazer, como num trajeto de sete horas. Sentei para tomar um capuccino enquanto a hora do embarque não chegava e tirei um dos livros da sacola, O Apanhador no Campo de Centeio, fazia tempo que queria lê-lo.

P.S. Sobre o dinheiro tenha paciência que um dia contarei qual foi sua fonte, sobre minha idade por enquanto só adiantarei que sou bem jovem e sobre minha família... bem... eles estão vivos e aparecerão na hora certa (o dinheiro não veio de herança).



Continua...

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Mau Mau

Era aniversário da Kássia, toda a turma reunida numa pizzaria. Não demoramos lá e tudo correu bem, exceto pelo garçom quase se recusar a colocar uma fatia de pizza no prato do Filipe, que tinha despejado a lata de azeite quase toda no prato. E pela célebre frase do Márcio em aniversários em pizzarias: "Nem sei por que eu vim!", isso sempre ocorre com muita naturalidade e na frente dos aniversariantes.

Saímos da pizzaria e fomos à casa da aniversariante cantar os parabéns e comer o bolo. Chegando lá cumprimos nossa obrigação e, enquanto conversávamos um pouco, assistimos ao final de Todo Mundo em Pânico 4, o qual não recomendo a ninguém, e logo todos começaram a colher opiniões de coisas interessantes para se fazer, numa tentativa de superar o trauma causado pelo filme. Sugeri jogarmos mau mau, uma boa boa idéia.

Para não transformar o post num tutorial do jogo indico aos interessados procurar as regras no Google.

Só eu e a
Karina sabíamos jogar, então explicamos as regras para o restante da turma: Thiago, Filipe, Beto, Márcio e Leidiane. Foi nessa que a coisa emperrou, a menina não sabia nem diferenciar os naipes do baralho, mas, tudo bem, sou brasileiro e não desisto nunca.

Iniciamos a partida e logo começou o melhor do jogo, as armadilhas com o Rei. No Mau Mau, quando algum ser muito mau coloca um Rei na mesa, todos devem ficar mudos até a próxima rodada, e a Leidiane custava a entender isso (foi aí que desconfiei não ser brasileiro).

A cada malvadeza de alguém ela começava a questionar o porquê do silêncio, aí entregávamos uma carta por palavra dita por ela, gerando mais e mais reclamações. Mesmo com dois baralhos o monte estava prestes a ter saldo negativo, ela ia quebrar a banca.

Um maldito havia colocado um Rei na mesa e logo em seguida meu celular começa a tocar, como me ligam justo agora? Todos me olhavam com olhos que eram só felicidade, olhei para o lado: a Karina estava pronta para impedir minha fuga; juntei forças e de repente dei um salto para fora do sofá, achei ter escapado, mas aí percebi que minha perna ainda estava no sofá, segurada pela Karina. Corri ignorando o fato (depois desse acidente nunca mais corri como antes) e me refugiei na despensa para atender o celular.

Após uma rápida e silenciosa conversa, voltei às pressas para a sala (sem sentir uma perna) pronto para convocar o conselho e clamar por piedade, mas antes que os olhares furiosos me queimassem vivo, o Thiago disse que o Rei tinha sido colocado por mim, na rodada passada, ou seja, ninguém precisava ficar mudo ¬¬.

Continuamos em plena harmonia a nossa partida (a Leidiane quase arrancou a mão da Karina para não receber cartas extras, não aprendeu mesmo a ficar muda, e, pouco depois começou a chorar, continuava sem entender a regra fundamental, não chorar) e após três horas de jogo estávamos ainda muito longe do fim...