terça-feira, 16 de junho de 2009

I'LL Be Back

Depois de muito tempo, muito tempo mesmo, resolvi ressucitar esse Blog, e dessa vez é pra valer. Em breve publicarei vários posts, serão pelo menos 2 por semana. Se é sua primeira visita ao Apanhador essa é a hora de aproveitar esse breve momento e se atualizar lendo os posts antigos. Se você já é de casa e está cansado de vir atrás de post novo, me desculpe, prometo que os novos posts farão a espera de quase seis meses valer a pena.

Particularmente, não gosto de poesias, mas mostrarei a você uma que me inspirou profundamente e me fez refletir por todo este tempo que estive ausente aqui (se você já leu, releia, essa é uma lição de vida):


"Mamãe querida,

vamos lamber ferida?

Não amor,

prefiro lamber tumor.

Tumor não me seduz,

prefiro um copo de pus.

Pus só na caneca,

prefiro lamber meleca.

Meleca só no jantar,

abre a boca que vou vomitar!"




Abraços nobre leitor(a)!

domingo, 11 de janeiro de 2009

Que Assim Seja, Amém!

Eram oito horas da manhã e o sino da igreja chamava os fiéis para mais uma missa dominical na Ilhéus de 1932. Os coronéis do cacau levavam suas esposas até a porta da igreja no porto e atravessavam a rua rumo ao bar Vesúvio, para resolverem negócios...

Assim que o último coronel entrava no bar as portas eram fechadas. Manoel, o português dono do bar, abriu as portas mais distantes do fundo do bar e e foi puxando a procissão pelo túnel escuro. 200 metros adiante Manoel abriu outra porta, essa com dois grossos cadeados, e o Sol, que ali parecia mais radiante, iluminou os rostos dos sorridentes coronéis.

Ali funcionava o Bataclan, o paraíso dos homens daquela região, e de outras, que vinham conferir o comentado bordel e casa de jogos. Na sala de entrada todos guardavam seus chapéus, paletós e bengalas e já acendiam os charutos cubanos enquanto se dirigiam à sala de jogos. De meia em meia hora dançarinas de cabaret entretiam os clientes com shows e iam com os perdedores do poker para os aposentos no andar superior.


Num dos shows o som foi interrompido, Maria Machadão, a proprietária do estabelecimento, uma senhora de seus 60 anos, mas com cara e corpo de 30, entrou no salão e de mesa em mesa cumprimentou os seus clientes. Aquela mulher era tudo o que aqueles coronéis mais desejavam, mas, para a infelicidade deles ela era uma dama de respeito, e só administrava o lugar. Ela passou um tempo maior numa das mesas de jogatina, a mesa na qual estava sentado o coronel Olívio, o único que a possuía. O caso deles já tinha quase uma década, e embora todos na cidade soubessem, eles eram muitíssimo discretos. Primeiro, ela se recolheu ao seu quarto, e em menos de dois minutos Olívio pediu licença para redigir uma carta no escritório público, que ficava vizinho ao quarto da Srta machadão.


Na igreja o padre chegava às duas horas de missa ininterruptas, metade do tempo total, e o calor era insuportável, mas não tanto quanto aquelas mulheres precisavam fingir acreditar nas reuniões dos maridos e tolerá-las, mas, fazer o quê se isso era o preço a se pagar para levar uma vida de madame. Tudo pelas roupas vindas da Europa e pela mordomia de ter escravos numa época em que a escravidão já não deveria existir. Dona Ana Maria, esposa do coronel Olívio, o mais rico da região, tinha seu lugar e os de suas filhas reservados pelo padre Itamar na primeira fila, era o camarote vip da época, o lugar mais próximo de Deus, e do santíssimo padre.


Após quatro horas de missa em latim, cantos que caberiam em uma caixa de vinís, ventos gerados pelos leques capazes de mover moinhos e suor que daria para abastecer a cidade por uma semana o padre ordenou que o coroinha mais velho fosse tocar o sino anunciando o fim da missa, disse ainda: Toque daquele jeito!


O coroinha chamou um colega para ajudar e foram com todas as suas forças tocar o sino, tocavam sempre por três minutos, e então retornaram ao altar. O padre autorizou que abrissem as portas e foi o primeiro a sair em direção ao bar Vesúvio. As mulheres, como de costume, foram conversar na praça enquanto esperavam pelos seus coronéis.


A multidão tinha acabado de chegar pelo túnel do Manoel quando um funcionário do Vesúvio abriu a porta para o padre Itamar. Os coronéis fizeram fila para receber as bênçãos divinas e após recebê-las deram cada um sua contribuição ao coronel Olívio, que somou mais uma generosa quantia e repassou o dinheiro ao bondoso padre, que exercia a cada semana o seu papel celestial de distrair as mulheres. E assim, a vida sustentada por cacau continuou em Ilhéus por muitos e muitos anos, com cada vez mais dançarinas, coronéis, padres e beatas.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Natal sem Dente na Casa de Parente


O natal da minha família sempre tentou ser somente um natal tradicional, mas felizmente nunca conseguiu, e a cada ano nos superamos e algo inacreditável ocorre. No último natal aconteceu um fato tão bizarro que chega a ser egoísmo não dividí-lo com você. E esse será o meu presente de natal a todos os leitores desse Blog...


Jingle bells, jingle bells, jingle all the way ...

O papai noel tamanho real (não me perguntem como sabem que é tamanho real) que minha avó havia comprado cantava e rebolava quando cheguei com meus pais e irmãos em sua casa. As tias chatas estavam a postos falando mal dos parentes que ainda não tinham chegado - mudaram de assunto assim que chegamos - os primos em tamanho miniatura corriam feito pinschers pela casa toda e os mais velhos ainda não tinham chegado.

Por volta das onze horas começamos o amigo secreto. Pedi pra começar e milagrosamente me deram essa honra. Descrevi quem tirei:

1. Um sujeito desastrado;
2. Incoveniente;
3. Geralmente engraçado e;
4. Com uns 200 kilos destribuidos nos seus 1,90m...

A família respondeu em coro: Frank! Era o irmão do meio de minha mãe, o tio preferido de todos os sobrinhos e filho e marido indesejado. A brincadeira continuou com ora alegria, ora decepção, eu por exemplo ganhei um conjunto de sabonete líquido e shampoo, será que sou tão fedido?

A ceia foi servida pouco após a meia-noite, depois de rezarmos o pai-nosso. Nunca tinha visto uma mesa tão farta, era uma pena eu ter me enfartado tanto com queijo e salgadinhos, mas pelo menos pro famoso tender preparado pelo meu avô eu tinha um lugar guardado. Tio Frank sentou numa das cabeceiras da mesa de 2 mil metros e gentilmente pediu ao meu pai, que estava no meio da mesa:

- ALFREDO, PASSA O PERU!

Ele cortou quase um kilo de peru e a coxa que sempre dizia ser sua por direito, sabe-se lá por que, e depois da primeira garfada voltou a falar:

- PORCARIA! Meu dente caiu ! Alguém me ajude a achar esse infeliz nesse prato.

Só minha vó conseguiu parar de rir e ajudar o abestado, o dente estava no meio da salada, e o prato dele era maior que os dos outros tios juntos. Ele pegou o dente e saiu resmungando para a cozinha. Após todos acalmarem os ânimos continuamos jantando, quando de repente vem o tio Frank correndo da cozinha pulando e sem abrir a boca, totalmente desesperado com uma Super Bonder na mão. Colou além do dente a boca...

-Maravilha! - Meu pai não aguentou e foi o primeiro a gargalhar.

Metade da família interrompeu o jantar e foi levá-lo ao hospital enquanto a outra metade ficou rindo da situação. Após duas horas o resgate em família retornou com tio Frank puto da vida, ele nem respondeu às provocações e foi terminar o seu prato, ficando ainda mais enfurecido ao perceber que roubaram a coxa do seu prato.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Uma Vida Nas Alturas

Tripulação, decolagem autorizada.

O coração de Ana Maria estava mais acelerado que os dos torcedores do Vasco no jogo do rebaixamento, era seu primeiro vôo, todos os seus amigos e familiares foram levá-la ao aeroporto - nenhum deles tinha viajado de avião também, isso não era comum na década de 60 - ela estava saindo do Rio de Janeiro para Miami, queria parir ao lado do marido, que prestava serviço lá há um ano para uma empresa de engenharia brasileira. E seu filho teria além do suporte de uma das melhores maternidades do mundo, dupla nacionalidade.

Para não viajar sozinha insistiu que a irmã, Beatriz, fosse com ela, alegou ser covardia deixar uma irmã com uma barriga de sete meses sozinha numa máquina daquelas, se era pra sofrer que sofressem em família.

O comandante anunciou que poderiam retirar o cinto de segurança e que em poucos minutos seria servido o serviço de bordo.

Ana comeu o seu jantar e o da irmã, a qual estava completamente imóvel esmagando um terço entre seus magros e longos dedos.


- Está com medo Bia?

- Não tanto, mas começo a duvidar de que eu tenha coragem para viagem de volta. E você está bem?

- Estou sim, só queria que você me ajudasse a ir ao banheiro, bebi muito suco e acho que não segurei, estou toda molhada.

- Como é? Deixe eu dar uma olhada.... Sua bolsa rompeu!! Socorro! Minha irmã entrou em trabalho de parto!!


O avião sobrevoava a floresta amazônica neste momento. Haviam três médicos no vôo, mas logo que o primeiro se apresentou os outros preferiram voltar a dormir. A comissária levou as irmãs e o médico para a primeira classe e ficou para ajudar. O doutor se impressionou quando viu que o parto não demoraria mais de uma hora. E aconteceria ali mesmo, no avião.

As contrações se tornavam mais intensas, Ana gritava mais alto e com maior intensidade, os de sono mais pesado iam também acordando, as crianças choravam e se esperneavam, as mulheres estavam em pânico e os homens aterrorizados.

O médico disse já estar vendo a cabeça de Clarice, chegara o momento tão esperado, em frações de segundos o resto do corpo deslizara para fora... Não era Clarice, era Ricardo, o pai vencera a aposta.
Um fato desses costuma render uma boa audiência na mídia, então, assim que o avião pousou em Miami, no início da manhã, além de carros da polícia, paramédicos e bombeiros (pra quê bombeiros?) estavam vans de todas as redes de televisão, e é claro, o pai.

Foram todos levados à maternidade e liberados no mesmo dia à noite. As irmãs juravam nunca mais entrar num avião, e assim foi feito, moram lá até hoje. Beatriz se casou com um ricaço de Palm Beach que era o responsável pelas provas da Nascar no estado e exerce com maestria a profissão de mulher de milionário; Beatriz escolheu a luxuosa orla de Miami Beach e se dedicou aos filhos, depois de Ricardo teve duas meninas, ambas nascidas em solo firme, e; seu marido (vai terminar sem nome mesmo) foi contratado pela Odebrecht - Miami.

O menino que nasceu nas nuvens cursou a escola de aviação e hoje pilota Boeings de Los Angeles ao Japão, casou com uma aeromoça inglesa e mantém um apartamento espaçoso em frente ao Central Park. Quando tem tempo vai com a família visitar os pais e tios na Flórida e o restante da família que ficou no Brasil, além dos sogros em Londres. É, uma vida nas alturas.